A Bela e a Fera e o desejo do mundo

O mar do Caribe é lindo, ninguém pode negar. Ainda que nunca se tenha ido até lá – e a imensa maioria de nós nunca foi e nem nunca irá – mesmo assim, dá para ver pelas fotos e vídeos. O azul, azulzinho... Ou melhor, as três faixas horizontais de cor, a areia branca, o azul esverdeado da água em contraste com o azul intenso do céu com sol, a figura dos coqueiros debruçados sobre o mar. A transparência da água parece se destacar como signo fundamental na composição geral. Na cena toda, a transparência parece sugerir a possibilidade de uma existência especialmente leve e suave, num mundo cálido, envolvente e acolhedor. Há uma sugestão de paraíso na terra, além da associação comum que relaciona o estado de felicidade ao contato direto com a natureza, gerada por uma sensação de pertencimento ao planeta, muito comum entre os surfistas. Dentre os motivos que contribuem para o enaltecimento da imagem do mar do Caribe como algo inegavelmente belo está o seu caráter irreal, se pensarmos do ponto de vista do modo como vive a maioria das pessoas. Desde meados do século XIX, populações acumulam-se nos grandes centros urbanos, vivendo em espaços exíguos, privadas de qualquer possibilidade de avistar o horizonte ou até mesmo de ver o céu, a não ser por estreitas brechas entre os edifícios. O contraste das realidades certamente favorece a associação positiva, reforçada pelo aspecto exótico daquela paisagem.

Interessa pensar em que momento e sob quais circunstâncias na existência, na infância ou juventude, o belo incide sobre nós, quando o enxergamos pela primeira vez, numa determinada experiência, e somos assim tocados pelo desejo. Uma vez capturados, nos tornamos eternamente reféns da visão que despertou o desejo. Esta passa a ocupar um lugar privilegiado na memória, impulsionando toda sorte de ações no intento de promover a reprodução da experiência. O que há no signo do belo que tão fortemente desperta o desejo, que nos coloca num leve estado de transe, uma espécie de hipnose, e permanece constantemente atraindo atenção? Para além da imagem do mar azul claro e transparente, aqui também poderiam estar pessoas, o rosto da pessoa amada, múltiplos elementos da natureza ou mesmo melodias. Assim como as imagens, sons podem alcançar um alto nível de encantamento. Ainda, outros incontáveis contextos, incluindo narrativas, estórias ou mesmo vagos estados espirituais podem ser geradores da experiência de beleza. Muitas vezes a complexidade do evento se efetiva pelo fato de estarmos geralmente absortos em funções cotidianas, desprevenidos do porvir, quando somos subitamente capturados pelo belo. O inesperado agrega à experiência um caráter de exaltação, na promoção de um instante glorificado, de um momento sublime com o poder de nos remover da mesmice do esforço diário, numa elevação vertiginosa para um estado especial, condição sui generis. Estado de consciência ampliada na noção clara de que de fato existem mais coisas para além da racionalidade, uma espécie de comprovação efetiva do mistério.

Os componentes necessários para a ignição do belo estão certamente dentro de cada pessoa, relacionados a seu histórico pessoal e cultural. Atualmente, o que é belo para uns não vale para outros, não sendo mais, de modo algum, um conceito-chave, como valido para os teóricos do século XVIII. Alguns signos mais potentes como a lua cheia ou o pôr-do-sol ainda podem servir como noção de beleza comum, no entanto qualquer tentativa mais séria de unificação do gosto tende a falhar. Muitas coisas interessantes se tornaram belas e muitas coisas belas se tornaram estranhas em sua pretensão de universalidade, como por exemplo: a pessoa bonita. A beleza padronizada pela mídia nas últimas décadas está desgastada e a classificação de belo hoje abandona a noção naif de modelo. Não há mais modelo a seguir, o contexto é o que importa. O contexto cultural e político nunca antes alcançou tanta importância e parece natural que assim o seja, uma vez que se considere a irreversibilidade do acesso às mais diferentes culturas espalhadas pelos quatro cantos do mundo. A beleza agora é informada. O feio também, quase tudo que já foi considerado feio agora pode ser igualmente belo, dependendo do ângulo pelo qual se pretende enxergar.

O conceito de feio, assim como o de beleza, sofre atualmente violentas alterações dependendo do contexto, como por exemplo: a feiura da injustiça, à qual associamos a noção de maldade. O feio, muito mais do que uma imagem feiosa, parece estar ligado a sensações ruins, valores éticos e morais, podendo ser também o tedioso, o enjoativo, como uma forma de castigo visual de algo que nunca muda e se repete eternamente.

.  .  .

Ser artista é concentrar energias e organizá-las em torno de uma   intenção única, ligada à criação. Fazer escolhas para afinar essa intenção é o desafio básico do percurso, para assim definir o que se pretende realizar e como fazê-lo. Escolher é abandonar, deixar para traz o que não interessa e arriscar apostando numa visão particular e pessoal do mundo e da existência. Ainda que esta visão pareça uma verdade improvável, é necessário correr o risco de errar para poder acertar. É fundamental potencializar a poética, torná-la contundente, eficaz, ou seja, produzir arte com qualidade, entre tentativas, cálculos e elucubrações, estabelecimento de critérios e escolhas. Desta forma o artista organiza o desejo do mundo. Lidar com o desejo em geral – o próprio e o de todos – é lidar com o apetite do mundo, ânsia pulsante e inexorável por mudanças, transformação continuada para a obtenção de satisfação, deleite, sonho, prêmio, realização, redenção ou o que seja.

Numa suposta atribuição momentânea de poderes especiais ao artista, poderíamos considerar que ele possa, a um só tempo, enxergar dois mundos distintos. Lançando um olhar para o mundo real, como ele é, somando-o a outro, um segundo mundo imaginado e aperfeiçoado a sua maneira. O artista então se torna capaz de, através deste olhar duplicado, antecipar uma coleção própria de futuros possíveis, projetando imagens inéditas de seu universo próprio naquilo que produz. Futuros possíveis, em que desejos e realidades se misturam, beleza e feiura se confundem e se transformam, oscilando em favor de uma efetiva renovação do real.

Leda Catunda

// Beauty and the Beast and the desire in the world

The Caribbean Sea is beautiful, nobody can deny it. Even if you’ve never been there- and the vast majority of us never have and never will go- you can still see it in photos and videos. The blue, the bright blue… or even better, the three horizontal bands of color, of white sand, of the greenish blue of the water in contrast with the intense blue of the sunny sky, the silhouette of the palm trees bending over the ocean. The water’s transparency seems to stand out as a fundamental part the overall composition. In the whole scene the transparency seems to suggest the possibility of an especially light and comfortable existence, in a warm and welcoming world. A sense of belonging to the planet, common among surfers, hints at paradise on earth besides the common association that relates the state of happiness to direct contact with nature. Among the reasons that contribute to the enhancement of the image of the Caribbean Sea being undeniably beautiful is its unreal character, if we think from the point of view of the way most people live. Since the middle of the 19th century, populations have gathered in big urban centers, living in restricted spaces, deprived of any chance to see the horizon or even to see the sky except through narrow strips between the buildings. This contrast of realities most certainly favors a positive association which is reinforced by the landscape’s exotic quality.

It’s interesting to think about at what moment and in what circumstance of existence in our childhood or youth beauty is upon us, and we see it for the first time in a specific experience, and we are thus touched by desire. Once we are captured, we become eternal hostages to the vision that aroused the desire. This happens to occupy a special place in our memory, driving all sorts of actions attempting to reproduce the experience. What is it in the sign of beauty that so strongly awakens desire, that puts us in a trance, a special hypnosis, and keeps constantly attracting our attention? In addition to the image of the transparent blue sea, there could also be people, the face of a loved one, multiple elements of nature, or even melodies. As with images, sound can reach a high level of enchantment. Still, countless other contexts, including narratives, stories, or even vague spiritual states can create the experience of beauty. Often the complexity of the event is effected because we are absorbed by everyday tasks, unprepared for the future, when we are suddenly captured by beauty. Unexpected experience adds an element of exaltation to the experience, in the promotion of a glorified instant, of a sublime moment with the power to remove us from the banality of daily stress, in a giddy elevation to a special state, a sui generis condition. A state of consciousness amplified by the clear notion that something beyond rationality actually exists, a kind of proof of the mystery.

The components necessary for the ignition of beauty are certainly inside each person, related to their personal history and culture. Nowadays, what is beautiful to some is not for others, no longer being a key concept, as valid for eighteenth century theorists. Some of the more powerful signs like the full moon or sunset could serve as a notion of prevailing beauty, while any more serious attempt at unifying tastes tends to fail. Many interesting things become beautiful and many beautiful things become strange in their claim of universality, as for example: the beautiful person. The media’s beauty standard in the last decades is worn out and the classification of beauty today abandons the naïve notion of model. There is no longer a model to follow, context is what matters. The political and cultural context have never before achieved such importance, and it seems natural once you consider the irreversibility of access to different cultures spread out across the world.  Beauty now is informed. The ugly is as well, almost everything that has been considered ugly can now be equally beautiful, depending on what angle you choose to look from.

The concept of ugly, as well as that of beauty, currently suffers violent alterations depending on the context. For example we associate the notion of wrong with the ugliness of injustice. The ugly, much more than an ugly image, seems to be related to bad feelings, ethical values and morals, and can also be the tedious, the nauseating, like a form of visual punishment of something that never changes and repeats eternally.

.  .  .

To be an artist is to concentrate energies and organize them around a singular intention, linked to creation. To make choices to refine this intention is the basic challenge of the course, to define what is to be done and how to do it. To select and abandon, to leave behind what doesn’t interest us and venture betting on a personal vision of the world and of existence. To deal with desire in general- your own and everyone’s- is to deal with the world’s appetite, a pulsating and inexorable urge for change, continuing transformation to obtain satisfaction, delight, a dream, a prize, achievement, redemption, or whatever it may be.

In a supposed momentary attribution of special powers to the artist, we must consider that he can all at once see two distinct worlds. Taking a look at the real world, as it is, adding it to another second world and imagined in his way. So through this double vision the artist becomes able to anticipate his own collection of future possibilities, projecting unpublished images of his own universe in his creations. Future possibilities, in which desires and realities are mixed, beauty and ugliness get confused and transformed, oscillating in favor of an effective renewal of the real.

Leda Catunda