A encantadora alma das ruas de Mano Penalva.

É uma questão de aceitar a dignidade do trabalho, seja ele qual for.

Politicamente, o âmago é aceitar a dignidade do trabalho.

E o trabalho não é uma coisa servil.

É algo que exprime a alma da pessoa.

[Nise da Silveira, em entrevista a Leon Hirszman]

A estética da gambiarra se consagrou, no Brasil, no final dos anos 1990, notadamente pelo esforço de curadores e críticos que revisaram a produção artística feita com materiais do dia a dia, por vezes precários ou efêmeros, em geral para fazer colidir arte erudita e arte popular. Foram sobretudo a 24a Bienal de São Paulo (1998) e as mostras do eixo curatorial Cotidiano/Arte, adotado pelo Instituto Cultural Itaú para a programação do ano de 1999, que colocaram em pauta a antropofagia que a arte brasileira fez do dadaísmo e do conceitualismo, principalmente do legado de Marcel Duchamp, que entre nós chegou com certo atraso (entre eles também; basta lembrar que The Duchamp Effect, a icônica publicação do MIT, data de 1996). Naquela virada de milênio, questionava-se o que seria das montanhas de refugo industrial que a humanidade conseguira produzir em escalada exponencial rumo ao século 21.

No final dos anos 2000, já se falava em gambiologia, abarcando a apropriação do lixo digital na produção artística, e nova rodada de mostras e debates aconteceu em torno do tema, repaginado. Em 2006, a 27a Bienal de São Paulo examinou a economia e afetividade das trocas, do deslocamento e das formas do viver coletivo. Uma exposição no New Museum, em 2007, ofereceu uma nova narrativa para a vasta produção contemporânea feita prioritariamente com objetos da vida mundana. Intitulada Unmonumental, a mostra reuniu artistas como Isa Genzken, Rachel


Harrison, Abraham Cruzvillegas e John Bock para indicar a escolha da colagem e assemblage, da escala humana e da baixa assertividade para abarcar o mundo em ruínas pós 11 de Setembro. Por aqui, onde jamais fomos modernos, mas já éramos pós-modernos em tempos coloniais, o ready-made permeia a história da arte desde os anos 1960 e vem sendo esgarçado e ressignificado pelas gerações subsequentes. Todo este preâmbulo poderia desembocar, naturalmente, em uma leitura crítica das apropriações de Mano Penalva de objetos cotidianos, como a sacola de feira, feita de ráfia, ou as faixas de polietileno das cadeiras de praia, ou ainda as lonas coloridas dos vendedores ambulantes, para a criação de pinturas-objeto imantadas da vida das ruas do Brasil profundo. Não fosse pelo fato de a exposição ACORDO, que o artista preparou ao longo de meses (senão anos, a contar da gênese de seu discurso muito particular) para apresentar na Galeria Central, não orbitar essa estética pela qual Penalva ficou conhecido. Acontece que a linguagem do artista não implica uma estetização da precariedade, mas, sim, um entendimento da rua como sujeito. Este sujeito é o protagonista da individual ACORDO.

‘’Pedra e Sabão’, por exemplo, carrega a alma encantadora das ruas. Parte, como todas as obras da exposição, da observação muito atenta do Mano Penalva caminhante, que não olha apenas, mas vive a cidade com o corpo todo: escuta, conversa, sente os odores e os vapores da metrópole. Na banca rasteira de uma vendedora ambulante, ele negocia as pedras de sabão. Da poesia - o artista empresta da literatura brasileira e de sua música popular grande parte de seu repertório imagético, além de ser exímio nos jogos de palavra, como indicam os sentidos cambiantes do título de sua exposição - ele traz a pedra-sabão. O grupo escultórico funciona, em ACORDO, como síntese de todo o pensamento. Ali estão concentrados a experiência coletiva das trocas que se dão nas ruas, nas feiras, nas fazendas, do trabalhador informal que domina o seu ofício de ponta a ponta (cuja recusa à alienação fascina Penalva); a negociação, a economia simbólica e, claro, o aceno sensível a David Hammons, o artista que, notoriamente, estendeu uma lona no chão de inverno de Nova York para vender bolinhas de neve de diferentes tamanhos aos transeuntes menos anestesiados dos anos 1980.


Em torno de Pedra e Sabão, o visitante vê outros conjuntos escultóricos que emulam a performance de vendedores e artesãos ambulantes: Quentinho, Cintura, Melzinho; mais adiante estão Xadrez, Descanso, Margarida e Palhinha, cada um pensado como a materialização dos gestos que compõem a teatralidade típica do fazer, do organizar e das negociações do mercado de rua. Quentinho, por exemplo, traz a expectativa presente nas relações de compra e venda; cones de amendoim oferecidos pelo ambulante ganham o aditivo da “sorte grande”, porque um dos amendoins é uma peça em ouro, e quem visita a exposição pode comprar um por R$ 50 e três por R$ 100. Os cintos que o vendedor oferece pendurados em seu braço, os panos que o outro carrega no ombro, as palhinhas que artesãos tramam nas esquinas. Todos parecem estar num jogo preciso que conversa com “Acorde”, uma composição distribuída dinamicamente pelas paredes, de lonas enceradas, dobradas e repousadas em facas e bastões de vidro. Novamente, corporificado, outro personagem da rua: o amolador de facas, que também protagoniza um vídeo apresentado em TV de tubo.


A realização das mãos, a artesania das imperfeições, o ciclo dos acordos: toda narrativa que subjaz à observação e corpo-a-corpo de Mano Penalva com os ambulantes ecoa, no contexto da arte, o processo de criação e inserção do próprio artista. O labor diário de todos eles, desde que acordam até o último “acordo bem acordado” do dia, seja com o comprador, o fornecedor ou a patrulha a que estão sujeitos os trabalhadores da rua e da arte, encontra na exposição um elogio e uma homenagem. A labuta vem acompanhada de sons, um deles uma composição musical, feita para os dias de trabalho no ateliê até o momento da exposição, em parceria com o cantor e compositor Paulo Neto, à la “cantos de trabalho” recolhidos por Leon Hirszman na trilogia Mutirão, Cacau e Cana-de-açúcar, documentários de curta-metragem que mostram as cantigas que os camponeses nordestinos entoam para amenizar o trabalho pesado. “Acorda, acorde, acode, o tempo levantou cedo. (...) Vamos fazer um acordo, toco um acorde pra você. E se você cedo acordar, acordo bem acordado, outro acorde vou lhe cantar”, o visitante escuta ao percorrer a Central. Há, finalmente, o som do Koan (na tradição zen-budista, perguntas que não têm resposta), que se ouve em um breve momento do vídeo ACORDO, a projeção sobre cortina de lona vincada que está no centro da sala. Aqui, Penalva trabalhou com Fernanda Pavão, Moisés Patrício, Paulo Neto e o diretor Di Rodrigues, outra modalidade do viver coletivo e da afetividade das trocas, presente em todas as obras expostas. O que pode fazer uma mão sozinha? Qual o som de uma só mão a bater palma? A teatralidade das mãos é explorada, na obra audiovisual feita a dez mãos, implicando o simbolismo do aperto de mãos, do toque, do jogo, da mágica. Um só acorde, assim como um acordo solitário, não desenrola nada. Desenrola o que nasce de uma relação, de um saber geolocalizado, de uma ancestralidade assumida. Mano Penalva sabe de onde fala, por isso faz falar com tanta potência esse concerto polifônico que é a sua surpreendente exposição sobre a alma das ruas.

// Juliana Monachesi

the enchanting soul of mano penalva’s streets

It’s a question of accepting the dignity of work, whatever it may be.

Politically, the core is to accept the dignity of the work. And the work isn’t

something menial. It’s something that expresses the soul of the person.

[Nise da Silveira, in an interview with Leon Hirszman]

The aesthetic of the jury-rig was consecrated in Brazil at the end of the 1990’s, notably by the force of the curators and critics that reviewed the artistic production made with everyday materials, sometimes precarious or ephemeral, in general to make erudite art and folk art collide. The 24th Biennial of São Paulo (1998) and the shows of the curatorial axis Daily Life/ Art, adopted by the Cultural Institute of Itaú for 1999’s program, put a spotlight on the anthropophagy that Brazilian art made of Dadaism and conceptualism. Principally, of the legend Marcel Duchamp, who honestly arrived a little late (among them as well; just remember The Duchamp Effect, the iconic publication from MIT in 1996). At the turn of the century, it was questioned what would happen to the mountains of industrial refuse that humankind was able to produce on such an exponential scale into the 21st century.

At the end of the 2000’s, the idea of the jury-rig was already circulating, including the appropriation of waste in artistic production, and a new round of shows and debates took place around this theme. In 2006, the 27th Biennial of São Paulo examined the economy and effectivity of exchanges, displacement, and forms of collective living. In 2007, an exhibition at the New Museum offered a new narrative for the vast contemporary production made mostly from objects from the everyday world. “Untitled Unmonument”, a show that united artists like Genzken, Rachel Harrison, Abraham Cruzvillegas and John Bock to demonstrate the choice of collage and assemblage, the human scale, and little assertiveness to embrace the world in ruins after September 11th. This is where we were never modern, but we were post-modern in colonial times. The ready-made permeated art history since the sixties, and has been shattered and redefined by subsequent generations.

This preamble could, of course, lead to a critical look at Mano Panalva’s appropriation of everyday objects such as the grocery bag made of raffia, or the polyethylene strips of beach chairs, or even the colored tarps of the street vendors, for the creation of magnetized object paintings of deep Brazil’s street life. The exhibition, ACORDO (DEAL*), that the artist prepared to show in Central Gallery over the course of several months (if not years, from the genesis of his particular conversation), didn’t orbit the aesthetic for which Panalva came to be known. It turns out that the language of the artist doesn’t imply the aesthetic of precariousness, but rather an understanding of the street as a subject. This subject is the protagonist in the solo show ACORDO. 

“Pedra e Sabão” (“Stone and Soap”), for example, carries the enchanting spirit of the streets. Partly because all the works in the exhibition are from Mano Penalva the Walker’s attentive observation. He doesn’t just look at, but lives the city with his whole body: he listens, converses, breathes the smells and vapors of the metropolis. On the woven chair of a street vender, he negotiates the price of soapstone. From poetry- the artist borrows a large part of his imaginary repertoire from Brazilian literature and its popular music, in addition to being clever with word play, as can be seen by the double meaning of his exhibition’s title- he brings the soap-stone. In ACORDO, the sculptural group works like a synthesis of the whole thought. There, the collective experience of the trades that happen on the streets, at the markets, on the farms, of the informal worker who dominates his craft from end to end (whose refusal of alienation fascinates Penalva) are concentrated; the negotiation, the symbolic economy, and of course, the nod to David Hammons, the artist who notoriously extended a tarp on the ground in New York to sell snowballs of varying sizes to the less anesthetized passerby of the 1980’s.

Around the Stone and Soap, the visitor observes other sets of sculptures that emulate the performance of street venders and artisans: A Hot Lunch to-go, Belts, Honey; further along there is Chess, Rest, Daisy, and Weavings, each one thought of as a materialization of the gestures that compose the typical theatricality of doing, organizing, and the actual business of the street market. A hot food to go, for example, brings the expectation present in a buy-sell relationship; paper cones filled with peanuts offered by street vendors are also called “large luck” because one of the peanuts is a piece of gold, and whoever visits the exposition can buy one for R$50 and three for R$100. The belts that the vendor offers hanging on his arm, the dish clothes the other carries on his shoulder, the woven seats the artisan weaves on the street corners. They all seem to be in a precise game that converses with “Acorde” (“Chord”), a composition dynamically distributed along the walls, of closed up tarps, folded and put away on knives and glass tubes. Embodied again, another character from the street: the knife sharpener, who also stars in a video shown on an old-fashioned TV. The product of the hands, the artisanship of imperfections, the cycle of deals: all a narrative under the observation and melee of Mano Penalva with the street vendors’ echo, in the context of art, the process of creation and insertion of the artist. The daily labor of all of them, from when they awaken until the last “deal well dealt” of the day, whether it be with the buyer, the seller, or the patrol to which street and art workers are subject, finds in the exhibition a compliment and a tribute. The toil comes accompanied by sound, one of them a musical composition, made by days of work in the atelier until the moment of the exhibition, in partnership with the singer and composer Paulo Neto, to the “work songs” collected by Leon Hirszman in the trilogy Mutirão, Cacau e Cana-de-açúcar, short documentaries that show the songs the peasants in the Northeast sing to soften the heavy work. “Wake up, a chord, help out, time woke up early. Let’s make a deal, I have a deal for you. If you wake up early, a deal well dealt, I’ll have another deal to sing to you”, the visitor hears as they move through Central. 

There is finally, the sound of Koan (in Zen Buddhist tradition, questions that have no answer), which is heard in a brief moment of the video ACORDO, the projection onto a creased canvas in the center of the room. Here, Penalva worked with Fernanda Pavão, Moisés Patrício, Paulo Neto and director Di Rodrigues on another modality of the collective life, and the affectivity of the exchanges, present in all the exposed works. What can one hand do alone? What is the sound of one hand clapping? The theatricality of the hand is explored, in the audiovisual work made of ten hands, implying the symbolism of the handshake, of touch, of games, of magic. A single chord, as well as a solitary agreement, does nothing. Developing what is born from a relation, of a geolocated knowledge, of an assumed ancestry. Mano Penalva knows where he speaks from, and therefore speaks this polyphonic concert with such power, which is his amazing exhibition about the soul of the streets.

*ACORDO can mean both “deal” and “wake up”

// Juliana Monachesi