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Os cinco artistas selecionados exibem obras que navegam a relação arte-arquitetura de forma poética e arrojada, dando novos significados para a materialidade e o formalismo convencional. As artistas Adriana Affortunati, Luciana Paiva e Luiza Baldan, foram convidadas pela galeria para participar da mostra com trabalhos extremamente diferentes em termos plásticos, porem todos convergindo em um fator crucial: utilizam objetos e materiais ordinários como matéria-prima de cada obra, recriam suas conotações e consequentemente desconstroem a noção espacial e o reconhecimento objetivo dos dados em questão. Affortunati constrói esculturas com itens básicos de manuseio e produção, tais como embalagens, tecidos, metais e plásticos, transformando os vínculos com os propósitos originais de cada produto e reciclando o modo que enxergamos os mesmos. Paiva apresenta trabalhos escultóricos quase bidimensionais, são superfícies metálicas contidas dentro de molduras de madeira suspensas perpendiculares ou paralelas às paredes, as quais formam desenhos geométricos com grossas linhas escuras enquadrando nada menos que o próprio ar. Baldan é a única artista com um trabalho visivelmente figurativo e documental: uma fotografia em preto e branco de um antigo boliche, onde os elementos em cena remontam um determinado momento e local desconhecidos e ao mesmo tempo excepcionalmente familiar a qualquer um, provocando uma certa curiosidade pelo oculto e simultaneamente uma sensação de nostalgia, nos deixando por fim em um território no limiar entre o real e o ficcional.

Representados pela galeria, Bruno Cançado e Rodrigo Sassi (atualmente com uma mostra individual no CCBB São Paulo), apresentam obras diretamente relacionadas ao âmbito da engenharia e da construção urbana. Cançado está presente com dois trabalhos: uma escultura/pintura de concreto branco que ilude o espectador em sua espacialidade e embaça a percepção comum de desenvolvimento e acabamento ao aludir a uma massa corrida de pintura de parede; sua segunda obra, uma escultura de chão em formato de uma coluna irregular, é composta de três paralelepípedos de madeira atrelados a uma quarta parte de dimensões semelhantes feita de concreto armado, a qual se curva num movimento progressivo de distanciamento do bloco na parte inferior, contestando a rigidez e a função estrutural do material. Sassi, por sua vez, coloca em discussão os conceitos pré-definidos de escultura e instalação, assim como a fronteira entre a esfera publica e a privada. Seu único trabalho é também o maior da exposição, ocupando uma area medular de mais de quatro metros no chão da sala. A obra é uma composição de elementos metropolitanos, incluindo a apropriação de luminárias publicas, onde concreto, madeira e vidro se acomodam de forma orgânica e se projetam como um único objeto do piso para o ambiente de circulação da mostra.

É imprescindível lembrar que a galeria se encontra no subsolo da sede do IAB - Instituto dos Arquitetos do Brasil, ou seja, alem de ser palco de um lugar histórico na metrópole paulistana, é invariavelmente fonte de ideias e discussões sobre a relação entre o individuo e a polis. Através da interação existente entre as obras dos artistas e o espaço expositivo, “Arranjo” surge como um laboratório dentro desse cosmos, transcendendo a organização cartesiana arte/arquitetura/urbanismo e rejeitando qualquer categorização tradicional relativa aos objetos mundanos: a mostra engloba o trágico e o cômico, o rústico e o refinado, o certo dentro do “errado”. Rearranjar é divertido, criativo e necessário, revela novos caminhos e desencadeia uma série de oportunidades, abrindo dialogo para a nossa relação com a cidade e proporcionando uma reflexão sobre a forma que vivenciamos o espaço urbano como um todo.

Fernando Mota

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disarrangement

The second exhibit in Central Gallery’s new location is the first collective exhibit in the space. It covers not only the individual thoughts of each artist within their own respective lines of research, but also a central discussion of Central itself: innovation within the most traditional of materials and experimentation with other materials has always been a corner stone of the exhibits in the gallery. “Arrangement” (Arranjo) embodies this focus and proposes that we see the world around us as a conglomerate of creative possibilities, starting with its own physical elements. A dysfunctional narrative emerges from a hypothetical scene where things are taken out of their original contexts, distorting the viewers’ reality. It is this strange atmosphere mixed with a longing for something unknown that permeates the exhibit, stimulating an analysis of each artists’ experimental nature.

The five selected artists exhibit works that navigate the relationship between art and architecture in a poetic and bold way, giving new meaning to materiality and conventional formality. The gallery invited artists Adriana Affortunati, Luciana Paiva, and Luiza Baldan to participate in the show. Each uses extremely different mediums and styles, yet all have one crucial factor in common: they all use ordinary objects and materials as raw material, redefine their connotations, and consequently deconstruct the notion of space and their objective recognition. Affortunati constructs sculptures from basic shipping and production items such as packages, fabrics, metals, and plastics, therefore transforming the connection to their original purpose and recycling the way we see them. Piva presents sculptural works that are almost 2 dimensional, they are metallic superficies contained within wooden sculptures suspended perpendicular or parallel to the walls. They form geometric designs with dark thick lines framing nothing less but the air itself. Baldan is the only artist with a visually figurative and documentary work: a black and white photograph of an old bowling alley, where the elements in the scene depict a specific yet unknown time and place. At the same time, though, it is a familiar scene, provoking simultaneously a certain curiosity for the occult and nostalgia, and leaves us on the threshold between reality and fiction.

Represented by the gallery, Bruno Cançado and Rodrigo Sassi (currently with an individual show at CCBB São Paulo), present works directly related to engineering and urban construction. Cançado is represented by two works: a sculpture/painting made of white cement that eludes the spectator in its spatiality and obscures the common perception of development and finishings by alluding to spackling as a wall painting. His second work is a floor sculpture in the shape of an irregular column, made of three wooden cobblestones joined to a fourth part made of reinforced concrete, which curves in a progressive movement away from the block in the lower part, challenging the rigidity and structural function of the material. Sassi, on the other hand, touches upon the predefined concepts of sculpture and installation, as well as the border between public and private realms. His only work is the largest in the exhibit, with its main part occupying an area of four meters on the floor. The work is a composition of metropolitan elements, including an appropriation of public light fixtures where concrete, wood, and glass settle together organically and appear to be a single object on the floor causing circulation within the show.  

It is imperative to remember that the gallery is located on the lower floor of the headquarters of the IAB- Institute of Architects of Brazil (Instituto dos Arquitetos do Brasil). So, besides being a historical stage in the metropolis of São Paulo, it is invariably a font of ideas and discussions surrounding the relationship between the individual and the polis. Through the interaction between the artists’ works and the exhibition space, Arranjo emerges as a laboratory within these cosmos, transcending Cartesian organization of art/ architecture/ urbanism and rejecting any traditional categorization relative to mundane objects. The exhibit includes the tragic and the comic, the rustic and the refined, the right inside the “wrong”. Rearranging is fun, creative, and necessary; it reveals new paths and unlocks a series of opportunities, opening dialogue for our relationship with the city and providing a reflection about the way we experience the urban environment as a whole.

Fernando Mota