Tudo Passa

(ao meu amor)

Communis causa // Segundo o artista Mano Penalva (Salvador, BA – 1987), na exposição “Balneário”, sua primeira individual na Central Galeria, estão reunidos trabalhos desenvolvidos “por meio da apropriação de coisas comuns”. Enquanto a palavra “coisa” vem, de forma muito interessante, do latim causa, “razão de, motivo de”, a palavra “comum” vem do latim communis, “compartilhado por muitos”. Com a intenção de refletir sobre a presente produção desse artista, é proveitoso investigar quem seriam os “muitos” e de que forma “compartilham” da matéria-causa constituinte de seus trabalhos. 

Coloide cachaça // Na presente exposição, o que une todas as obras é o fato de se relacionarem, ao mesmo tempo, com a ideia de “produto nacional” e de “movimento”. Podemos, a fim de análise, dividir esses trabalhos em 3 conjuntos: um deles formado pelos trabalhos da série Origem, o outro formado por quatro grandes instalações e, por fim, isoladamente, um vídeo.

Janela com vista para o porto // O primeiro grupo é composto por obras construídas a partir de materiais para embalagem e transporte de produtos para a exportação, como sacolas, redes e tecidos plásticos, sacos de juta, cordas, elásticos e ganchos. 

É coisa nossa // O segundo é formado por instalações baseadas em objetos e materiais do imaginário e do cotidiano do homem brasileiro, como cadeiras de balanço, escovas para lavar roupa, pés-de-camelô, cortinas de bolinhas de madeira, palha, imagens de coqueiros, etc.

Ausente nas bandeiras // O material de embalagem que compõe os quadros da série Origem não guardam mais nenhum insumo, mas carregam a capacidade de nos lembrar que um dia participaram do movimento de uma relação de permuta. O “produto nacional”, nesse caso, é vestígio do comércio de exportação.

Tecido de grilhão // Globalização é o nome do processo definido pelo aumento exponencial das relações internacionais em escala planetária possibilitado pela facilitação tecnológica das dinâmicas de troca de produtos e ideias. A Globalização é um fenômeno derivado da expansão do Capitalismo e, portanto, não pode ser dissociado da disseminação do Patriarcado, do Colonialismo e do sofrimento que esses carregam. A Globalização acontece de forma diferente em espaços de Sul e de Norte. 

Boa // Sabemos que existe o Sul. Sabemos bem como ir ao Sul. Precisamos aprender a partir do Sul e com o Sul. 

Sinto sua falta? // Além da significativa ausência dos insumos nas embalagens da série Origem, há outra falta retumbante. O título da presente exposição se origina no nome “Balneário Nacional” de um antigo botequim ainda em funcionamento na Praia José Bonifácio, na Ilha de Paquetá, localizada no fundo da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. O título “Balneário” foi escolhido pelo fato do uso dessa expressão poder se referir tanto a um comportamento frívolo em uma divertida cidade junto ao mar quanto ao caráter de transitoriedade, impermanência e passagem dessas cidades. Porém, talvez tão importante quanto a palavra que restou no título seja o termo cuja omissão agora ilumina o espaço expositivo da Central Galeria.

Para semear fora do sulco // O nome da praia paquetaense, dedicado ao “Patriarca da Independência”, talvez possa ser ironicamente interessante para as discussões dessa exposição. José Bonifácio nasceu em Santos em 1763, estudou direito em Coimbra, pesquisou a pesca internacional de baleias, morava em Paris durante a fase inicial da Revolução Francesa, tornou-se um estudioso mundialmente importante da mineralogia, viajou por toda a Europa descobrindo 12 novos minérios (incluindo o elemento químico lítio), casou-se com uma irlandesa, lutou contra as tropas napoleônicas, voltou ao Brasil e foi nomeado por Dom Pedro I como Ministro de Reino e de Negócios Estrangeiros. Foi figura central nas articulações para a Independência do Brasil e, após desavenças com o Imperador, exilou-se no Sul da França. Inocentado, foi chamado de volta e morreu cumprindo prisão domiciliar na Ilha de Paquetá. Talvez, no Brasil durante aquela virada do século XVIII para o XIX, poucos pudessem entender melhor a dinâmica de comércio internacional e das relações de troca de ideias e produtos entre nações quanto o “patriarca” José Bonifácio.

Devaneamos, pois precisamos // No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Antes de tudo, houve Exu, há Exu, que é o próprio movimento, a transformação, o desejo, as possibilidades, a linguagem, o tal Verbo que é Deus. Daquela talvez primeira explosão, surgiu toda a existência: da mesma primeira poeira de estrela, desde então em constante mutação. Pouca coisa é mais importante e esclarecedora do que isso. Por que motivo reproduzir uma forma de pensar que se afasta da magia comum a tudo?

A origem do totalitombamento (spoiler: as respostas são “não”, “não” e “sim, justamente”.) // Será que devemos continuar tentando reproduzir a forma de encarar o mundo a partir da prosa e do cálculo? Surgiu, viralizou, criou caravelas, encontros fortuitos, bombas atômicas, câmeras de segurança, batalha de facebook, bichas lacradoras, Donald Trump, Donald Duck, as expressões Congo Belga e “abacaxi flambé na cachaça”. Pois, agora, a forma de lidar com a verdade a partir da prosa e do cálculo devora mortalmente o próprio rabo. Ou seria um simulacro? 

O que é que Itabira tem? // Na relação com o estrangeiro, percebe-se que o nosso chutar de latas é um caminho especial para descobertas quânticas. Afinal, o pó de nosso barro é um nascer em que bailam mésons. Há, em nós, um quarar a roupa, balançar na cadeira vendo o povo passar na calçada, ver passarinho, falar com planta, dar comida para a cachoeira, transar como se não houvesse amanhã, terça-feira gorda, garrafada, benzedeira, pular onda, mau-olhado (Deus nos livre), bater com o nó dos dedos três vezes na madeira. Nada disso salva o mundo, mas, na Globalização, o mínimo de saúde é conseguir discernir o que é produto para exportação e que deve ser vendido daquilo que faz parte de nossa diversidade, de nossa carne diversa, e que deve ser amado, vivido e vivo.

Brasileiro, uma contradição // Uma identidade é como um círculo. Tem um centro e um limite. Mas, como toda medida e desenho tem erros, o círculo não existe.

Meu Brasil Brasileiro // Porém, não confundamos, o entendimento de que diversidade é vida com uma defesa da tradição, que torna o passado mais remoto e o futuro falsamente definível. 

Moema, Godot e Cravan// Em “Balneário” há ainda, além das série Origem e do grupo de quatro instalações, o vídeo “Atlântico”, cujo som de mar ecoa por boa parte da exposição. O plano escolhido nos permite ver parte da areia, as ondas se desenrolando até a beira da praia e o horizonte com ilhas. O tipo de edição faz parecer que a própria câmera balança: em nós, a agitação do mar que nos fundou, o ninar materno e salgado que cuida de nossas cabeças. Vemos também um chuveiro, muito característico das praias da Zona Sul carioca, cujo jorrar d’água muda de direção com a força do vento. As coisas mudam o tempo todo e tudo passa, está passando, passou. Em frente ao vídeo, encaramos o horizonte como se esperássemos alguém chegar. Há um Ayudame a mirar! ecoando em cada ponto onde as veias abertas da América Latina tocam o mar. De que servirá esse chuveiro tão nosso, quando estiverem aqui conosco?

Você está seguro ou A Fuga // Há alguns anos, Mano vem se dedicando a pesquisar a formação da cultura brasileira e as maneiras pelas quais ela se manifesta em diferentes contextos. O comércio popular, a rua e a casa vem sendo seus grandes interesses de estudo. O principal procedimento em seu trabalho é a união gambiarresca, precisa e incomum de fragmentos e objetos muitas vezes reutilizados. Os resultados, usualmente de grande impacto visual, nos fazem ter a sensação de estar diante de algo que nos era doméstico e que, de alguma forma misteriosa, tomou vida. E agora, quando olhamos para eles nos ostentando suas próprias mutações, somos agraciados com sintomas da plasticidade da cultura.

Bernardo Mosqueira

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Tudo Passa (Everything Passes)

(ao meu amor) (to my love)

Communis causa // According to artist Mano Penalva (Salvador, BA – 1987), his first solo show in Central Gallery called “Balneário” combines works that are developed “by means of appropriating common things.” While the word "coisa" (“thing”) comes very interestingly from the Latin cause, "reason of, reason", the word "comum" (“common”) comes from the Latin communis, "shared by many". When reflecting on the present production of this artist, it is helpful to investigate who the "many" are and how they "share" the constituent material-cause of his work.

Coloide cachaça // In the present exhibition, what unifies the works is the fact that they all relate to each other with the idea of “national production” and of “movement”. We can, after analysis, divide these works into three groups: one of them consisting of the series Origem, the other formed by four large installations, and finally, a single video.

Janela com vista para o porto (Window with a view of the port)// The first group is composed of works made of packaging and construction materials used for exportation, such as bags, nets, and plastic fabrics, burlap sacks, ropes, elastics, and hooks.

É coisa nossa (It’s our thing) // The second is formed by installations based on objects and materials from the everyday life of the Brazilian man, such as rocking chairs, brushes to wash clothing, felt furniture pads, wooden beaded curtains, hay, images of palm trees, etc.

Ausente nas bandeiras (Absent in flags) // The material of the packaging that makes up the paintings of the series Origem does not actually package anything, but holds the capacity to remind us that they once participated in the movement of an exchange. The “national product”, in this case, is a vestige of export trade.

Tecido de grilhão (Embroidered fabric)// Globalization is the name of the process defined by the exponential increase of international relations on a planetary scale made possible by the technological facilitation of the dynamics of products and ideas exchange. Globalization is a phenomenon derived from the expansion of Capitalism, and therefore cannot be dissociated from the spread of the Patriarchy, of Colonialism, or from the suffering that these carry. Globalization happens in different ways in spaces in the South and North.

Boa (Good)// We know that the South exists. We know well how to get to the South. We need to learn from the South, and with the South.

Sinto sua falta? (Do I miss it?)// In addition to the significant absence of contents in the packaging from the series Origem, there is another resounding thing missing. The title of the present exhibition comes from the name “Balneário Nacional”, from an old bar still in operation in Praia José Bonifácio, on Paquetá Island, located on the bottom of Guanabara Bay, in Rio de Janeiro. The title “Balneário” was chosen because the use of this expression can refer both to the frivolous behavior in a fun city by the sea, and to the character of transience, impermanence, and passage of these cities. But perhaps the word that remains in the title is as important as the term whose omission now illuminates the exhibition space of the Central Gallery.

Para semear fora do sulco (To sow outside the furrow)// The name of the paquetaense beach, dedicated to the “Patriarch of Independence”, could be ironically interesting for the discussion of this exhibition. José Bonifácio was born in Santos in 1763, studied law in Coimbra, researched international fishing for whales, lived in Paris during the initial phase of the French Revolution, became a world-renowned mineralogy scholar, traveled throughout Europe and discovered 12 new minerals (including the chemical element lithium), married an Irish woman, fought against Napoleon’s troupes, returned to Brazil and was appointed by Dom Pedro I as Minister of Foreign Affairs and Kingdom. He was a central figure in the coordination of Brazil’s Independence, and after disagreements with the Emperor, was exiled in the South of France. Exonerated, he was called back and died fulfilling house arrest on the Island of Paquetá. Perhaps, in Brazil during the turn of the century from XVIII to XIX, few could better understand the dynamic of international commerce and the relations of idea and product exchange between countries than the “patriarch” José Bonifácio.

 Devaneamos, pois precisamos (We are drowsy because we need)// In the beginning there was the Word, the Word was with God and the Word was God. First of all there was Exu, there is Exu, which is movement itself, the transformation, the desire, the possibilities, the language, the Word that is God. From that perhaps first explosion, came all existence: from that same stardust, ever since mutating. Few things are more important and enlightening as this. Why reproduce a way of thinking which departs from the magic common to everything?

The origin of the totalitombamento (spoiler: the answers are "no", "no" and "yes, respectively".) Should we continue trying to reproduce a way of looking at the world based on prose and calculation? It emerged, became viral, created caravels, chance encounters, atomic bombs, security cameras, the battle of facebook, lacquering ropes, Donald Trump, Donald Duck, the expressions Belgian Congo and “pineapple flambé in cachaça”.  For now, the way of dealing with truth using prose and calculus mortally devours its very tail. Or would it be a simulacrum?

O que é que Itabira tem? (What does Itabira have?)// In relations with the foreigner, it is perceived that our kicking of cans is a special way for quantum discoveries. In the end, the dust of our clay is a birth in which mesons dance. There are, in us, sun-bleached clothes, swaying in the chair watching people pass on the sidewalk, seeing a bird, talking to a plant, feeding the waterfall, having sex like there’s no tomorrow, Fat Tuesday, bottles, folk healer, jumping waves, evil eye (God help us), knock on wood three times. None of this will save the world, but with Globalization, the minimum necessity for health is to be able to discern a sellable product for export from what is part of our diversity, of our diverse flesh, which must be loved, lived and alive.

Brasileiro, uma contradição (Brazilian, a contradiction)// An identity is like a circle. There is a center and a limit. But, since every measurement and drawing have errors, the circle does not exist.  

Meu Brasil Brasileiro (My Brazilian Brazil)// But let us not confuse the understanding that diversity is life with a defense of tradition, which makes the past more remote and the future falsely definable.

Moema, Godot e Cravan (Moema, Godot and Cravan)// In “Balneário” there is, beyond the series Origem and the group of four installations, the video “Atlântico”, whose sound of the ocean echos in a good part of the exhibition. The chosen framing allows us to see part of the sand, the waves rolling up to the shore of the beach, and the horizon with islands. It’s editing editing makes it seem like the actual camera is rocking: In us, the agitation of the sea that founded us, the motherly and salty lull that looks after our heads. We also see a shower, characteristic of the beaches of the Zona Sul in Rio de Janeiro, whose stream of water changes direction with the force of the wind. Things change the whole time and everything passes, is passing, has past. In front of the video, we face the horizon as if we expected someone to arrive. There is a “Help me look!” echoing at every point where the open veins of Latin America touch the sea. What use will our shower be, when they are here with us?

Você está seguro ou A Fuga (You are safe or The Escape)// A few years ago, Mano dedicated himself to studying the formation of Brazilian Culture and the ways in which it manifests itself in different contexts. Popular commerce, the street, and house have greatly interested him in his studies. The main procedure in his work is the makeshift combination, precise and unusual fragments or objects that are often reused. The results, usually with big visual impact, give us the sensation that we are before something that used to be domestic and that, in some mysterious way, took life. And now when we look at them flaunting their own mutations, we are graced with symptoms of culture’s plasticity.

Bernardo Mosqueira