Vai ser difícil não começar falando sobre a casa. Não esta casa em particular, mas um certo tipo de ambiente que propicia situações, que propicia imagens. Um ateliê doméstico, um jardim, com uma porta aberta para o mundo natural, por onde libélulas entram voando e se debatem pelas paredes. Numa garagem com pé direito com pouco mais de dois metros, no limite do tamanho das maiores telas que estão aqui expostas, as pinturas se acumulam. Aranhas não tão pequenas assim fazem teias nos pés das mesas de cavalete. É um pouco dessa característica de um espaço ativo, usado de forma coletiva, o que permite que interferências não programadas vão surgindo. O lugar de trabalho também influencia o método que usamos e as questões que surgem. 

A primeira vez que visitei Rodrigo Martins foi numa casa curiosamente parecida, ainda no Rio de Janeiro. Pareciam-se em atmosfera, mais do que em arquitetura. Acho que lá também não tinha campainha. A casa acompanhava uma encosta e o espaço do ateliê ficava descendo as escadas, um galpão que fazia fronteira com o mato lá fora. Era 2012, lembro de ouvi-lo falar sobre algumas das suas formas de trabalhar, e é possível perceber uma continuidade em muitos desses processos. Há um certo repertório visual. Lembro que falávamos de como as pesquisas passam de um meio/suporte para o outro. As coisas que víamos nas telas estavam lá, moravam naquele lugar. 

Vejo um contexto parecido no espaço onde ele trabalha agora. A casa junta muitos objetos, são deixados nos cantos, esquecidos, e vão ficando. Outros objetos, produzidos por Rodrigo experimentando, também se acumulam e acabam se misturando naturalmente com resíduos mais domésticos. Não é apenas o acaso, no entanto, às vezes ele até as reforça, cria armadilhas para uma situação. As coisas costumam ganhar ação num momento posterior. Quando encontra coisas assim, registra para só depois revisitá-las, deixa o tempo passar para ver se o interesse (ou a estranheza) das imagens persiste. Talvez sobrevivam mesmo que só para virar um elemento menor em alguma tela, coadjuvante. Não se prende por completo às referências.

Na rotina da pintura, os trabalhos convivem lado a lado, se comunicam. Suas paletas se contaminam, quando um cor de rosa usado para a palma da mão torna-se também o rosa de de um detalhe em outra pintura. Cores mais ácidas que vão ecoando em outras obras. Os problemas visuais surgem e vão sendo resolvidos com novos problemas, ou mesmo despontam saídas para as telas vizinhas. Pode começar pintando de observação e acabar cobrindo uma área da tela que não está se resolvendo para ver o caminho que a imagem apagada leva, e então surge um outro elemento. Mas sem apagar por completo, para deixar pistas do que já passou por ali. As pessoas que também vivem lá deixam rastros nas imagens. Interferem na paisagem da casa. Fazem café fresco e deixam na garrafa térmica. Tornam-se modelos para tirar moldes. Ficam partes dos seus corpos. A figura humana acaba entrando na imagem sempre meio encoberta. Rostos velados, moldes de silicone, não são da temporalidade do retrato. Uma tradição da pintura também é presente – motivos da natureza-morta, da pintura de paisagem. Elementos mínimos para transformar a pintura em figurativa convivem com certa abstração da realidade, seja por técnica, por justaposição ou por escala. Não é estranho que uma colagem dessas referências diversas venha se juntar à pintura de observação, unir esses elementos é uma decorrência quase natural. De fato, vários dos objetos produzidos são abstratos em si. 

O vocabulário que as pinturas de Rodrigo pedem são mais dessa ordem descritiva de situações: o jardim, insetos, plantinhas, objetos utilitários parados, objetos feitos, objetos quebrados, objetinhos de casa. Composições de vasos de jardim que fazemos quase sem querer, como por livre associação. Pequenos rostos de massinha ou em argila, tão amassados em matéria como nas pinceladas, na palma de uma mão. Tirar moldes, pintar o ato de tirar molde. Ou seria mais “tirar foto do ato de tirar molde”, para poder depois pintar uma certa estranheza desta ação? Pois o próprio material usado nesse processo já é estimulante, suficiente para juntar elementos – plástico verde, silicone, tinta, orelha. Mas como fazer a imagem funcionar do jeito que a coisa é? Como pintar cada coisa do jeito que ela pede para ser pintada? Esse interesse em unir o motivo da pintura com a forma de pintar é o que parece mover a pesquisa de Rodrigo Martins e criar um laço entre as telas que encontramos aqui. É um processo de pintura sempre atravessado pelos componentes do espaço. Ficar atento, deixar gatilhos pela casa, saber trabalhar os componentes ao seu redor. E pintar, pois, no fim do dia, é na tinta que tudo se resolve. 

Laura Cosendey

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It's going to be hard to not start by talking about the house. Not this specific house, but a particular type of environment that creates situations, that provides images. A domestic atelier, a garden with a door open to the natural world, where dragonflies fly in and beat against the walls. Paintings accumulate in a garage with ceilings of a little over two meters, the height of the tallest work exposed here today. Not-so-tiny spiders spin webs around the legs of the tables. This characteristic of an active space, collectively used, is what allows unplanned interferences to happen. The workplace also influences the method we use and the questions that come up.

The first time I visited Rodrigo Martins was in a somewhat odd house in Rio de Janeiro. It seemed more like an atmosphere than architecture. I don't think there was even a doorbell. The house was tucked against a hillside and the space of the atelier was on stairs, in a shed that met with the forest outside. It was 2012, I remember hearing him talk about some of the ways he works, and it's possible to see the continuation of many of these processes. There's a certain visual repertoire. I remember we spoke about how research becomes a means/ support for other research. The things we saw on the canvases were there, they lived in that place.

I see a similar context in the space where he works today. The house is made up of many objects, left around, forgotten, and they stay there. Other objects produced by Rodrigo's experiments also accumulate and end up naturally mixing with the household objects. It's not just chance, however sometimes he reinforces them and creates traps for a situation. The things tend to become active later on. When he finds things like this, he registers them only to revisit them later, letting time pass to see if the interest (or strangeness) of the images persists. Perhaps they survive only to later become a small element in a painting. He doesn't let the references hold him back.

 In the painter's routine the paintings live side by side and communicate with each other. His pallets contaminate each other, like when a pink used for the palm of a hand becomes the pink used in the detail of another painting. More acidic colors echo in other works. The visual problems appear and are then resolved with new problems, or are output to neighboring canvases. He could start painting from observation and end up covering a part of the canvas that's not working to see where the erased image leads, and so emerges another element. But without erasing it completely, so as to leave the traces of what had been there before. The people who also live in the house leave their own traces in the images- they interfere with the landscape of the house. They make fresh coffee and leave it in the thermos. They become models from which to create molds. They become part of their bodies. The human figure always ends up entering the image partially uncovered. Veiled faces and silicone molds aren't part of the temporality of the portraits. Traditional painting is also present- because of the still lifes and landscape painting. Minimum elements that make a painting figurative coexist with a type of abstract reality, whether because of technique, juxtaposition, or scale. It's not strange that a collage of these diverse references are combined with the observational paintings, uniting these elements is almost a natural occurrence. Actually, many of the objects produced are abstract themselves.  

The vocabulary that Rodrigo's paintings calls for is more of this descriptive order of situations: the garden, insects, plants, abandoned utilitarian objects, broken objects, nick knacks from the house. Compositions of garden pots that we make almost without meaning to, as if by free association. Small faces of clay, made up of as much material as the brushstrokes in the palm of a hand. Taking off the mold, painting the act of taking off the mold. Or it would be more "taking a photo of the act of taking off the mold", to later be able to paint the strangeness of this action? Since the very material used in this process is already stimulating enough to combine various elements- green plastic, silicone, paint, an ear. But how to make an image function the way that the thing actually is? How to paint everything the way that it asks to be painted? This interest in unifying the motive of the painting with the way of painting it is what seems to move Rodrigo Martins' research and create a bond among the canvases that we find here. It is the process of painting always crossed by the components of space. Pay attention, leave triggers around the house, know how to work the elements around you. And painting, at the end of the day, is resolved with paint.

 Laura Cosendey