Linguagens Esquivas 

Qual é a linguagem das coisas milenares? Seriam o silvo dos ventos, o borbulhar das lavas, ou o ronco das ondas, formas de discursos em velocidades e frequências tão longas e distendidas que nós não chegamos a compreender? O que nos estariam dizendo? Para muitas culturas as coisas todas no mundo são vivas, e se comunicam. Mesmo uma pedra no chão não é algo inerte. Tudo fala. Tudo sente. Nós é que não vemos. Ou não ouvimos. Ou não sabemos. É que o corte racionalista da nossa cultura – que podemos chamar de iluminista, de moderno, ou de ocidental –, ao desencantar o mundo, nos deixou sozinhos no lugar de fala, no lugar de seres produtores de discurso, de pensamento. Estranha solidão vitoriosa.

Cézanne passou a vida olhando para uma montanha. E em cada pintura que fez da montanha Santa Vitória, ela aparece diferente. São inúmeras as montanhas vistas por ele, porque seu olho, curioso e incansável, não parava de ver novas montanhas dentro da mesma montanha, como se fossem buracos se abrindo na paisagem, e na tela, estilhaçando o campo visual de sua integridade plana, e fecundando o lugar de onde nasceria o cubismo. Mas agora cabe alargar a pergunta: o que é que a montanha diria de Cézanne? Como é que ela o vê? Essa ordem de reflexões, me parece, move os trabalhos de Mariana Manhães.

“O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha”, escreve Didi-Huberman.[1] Isto é, não somos apenas nós os sujeitos da ação. Sem o olhar das coisas, o nosso olhar é estéril. E se não soubermos disso, entenderemos sempre tudo de modo parcial, míope. De que forma uma lápide nos olha? O que é que ela nos diz sobre a morte? Que há uma alma que se desprendeu daquele corpo putrefato lá embaixo? Ou, ao contrário, que não há nada além daquilo mesmo, daquela perda, e ela é apenas uma pedra nos encarando? Pequeno pedaço de uma montanha cortada, que assiste a nossa existência fugidia na perspectiva do tempo geológico. Crença ou tautologia? Duas formas de se tentar evitar o vazio aberto diante da morte. Mas o túmulo nos olha, escreve Didi-Huberman, porque impõe em nós “a imagem impossível de ver”.[2] O inominável, o invisível... Os trabalhos de Mariana Manhães, nessa exposição, procuram dar alguma tangibilidade a essas questões. Mas não nos trazem respostas inteligíveis. Antes, dobram o enigma.

// Guilherme Wisnik

[1] Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 29 (tradução de Paulo Neves).

[2] Idem, p. 38.

Elusive Languages

What is the language of ancient things? Would it be the whistle of the winds, the bubbling of lava, or the rumbling of the waves; forms of speech in speeds and frequencies so long and distended that we wouldn’t be able to understand? What would they be telling us? For many cultures, all things in the world are alive and they can communicate. Not even a stone on the ground is inert. Everything speaks. Everything feels. It is we who don’t see. Or don’t hear. Or don’t know. It’s that by disenchanting the world, the rationalistic cut of our culture - which we can call illuminist, modern, or occidental - left us alone in the space of speaking, beings producing speech, thinking. Victory has a strange loneliness. 

Cézanne spent his life looking at a mountain. And in every painting he made of Santa Vitória Mountain, it appears differently. There are innumerous mountains as seen by him, because his vision, curios and untiring, never stopped seeing new mountains within the same mountain. It’s as if they were holes opening in the landscape, and on the canvas, shattering the visual field of its flat integrity, and fertilizing the place from which cubism would be born. But now it is necessary to broaden the question: what did the mountain say of Cézanne? How does it see him? This order of reflections, it seems to me, is what moves the work of Mariana Manhães.

“What we see is only valid- only lives- in our eyes for what we look at,’’ writes Didi-Huberman.[1] That is, we aren’t the only subject of the action. Without the view of things, our view is sterile. And if we don’t know this, we will always understand everything partially, nearsighted. How does a tombstone look at us? What does it tell us about death? That there’s a soul that separated itself from that decaying body down below? Or instead, that there’s nothing beyond that, beyond the loss, and that it’s just a stone staring at us? A little slice of  mountain, that watches our fleeting existence from the perspective of geological time. Belief or tautology? Two ways to attempt to evade the open void when faced with death.  But the tomb looks at us, writes Didi-Huberman, because it imposes in us “the image impossible to see”.[2] The unnamable, the invisible… The works of  Mariana Manhães, in this exhibit, seek to give some tangibility to these issues. But they don’t bring us intelligible answers. First, they double the enigma.  

// Guilherme Wisnik

[1] Georges Didi-Huberman, O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 29 (tradução de Paulo Neves).

[2] Idem, p. 38.