Zimbeta

Ao observar a presente exposição de Rodrigo Martins na Central Galeria, alguns elementos são constantes. É possível destacar, em primeiro lugar, a presença da pintura e da escultura como linguagens norteadoras da sua criação de imagens. Em um segundo momento, no que diz respeito àquilo que poderíamos chamar de “assunto” das suas obras, chama a atenção a recorrência de elementos que remetem à anatomia humana. Essa relação triangular entre escultura-pintura-figuração, porém, não se trata de uma equação de fórmula óbvia e é sobre o seu tensionamento que a produção do artista parece estar concentrada.

O fazer escultórico do artista se dá pelo ato construtivo da adição. Em vez de abordar a escultura como um processo de subtração da matéria (onde, por exemplo, a figura humana nasce de dentro de um bloco de mármore), Rodrigo Martins trabalha a partir da maleabilidade artesanal e se predispõe à experimentação. Um de seus interesses recentes diz respeito aos pequenos bustos espalhados pelo Rio de Janeiro que prestam homenagem a artistas de gerações anteriores. O diálogo proposto entre o presente e esses monumentos que muitas vezes são despercebidos é feito ou pelo uso de diferentes materiais como o gesso e a imitação através do olhar, ou também pela extração de moldes feitos a partir do uso direto de silicone.

Os resultados obtidos são frágeis e rapidamente fadados à distância da imitação clássica. As esculturas são apresentadas de modo tão cru quanto sua confecção – pousadas diretamente sobre o chão da galeria, elas são opacas e não escondem as emendas entre o aço e a argila ou a arbitrariedade dos encontros entre um galho e o gesso. Esculpir e modelar são, ademais de produtores de objetos brutos, processos de criação abertos ao acaso.

Quando observamos estas obras ao lado de suas pinturas, algo de seu modus operandi fica mais claro – a mesma carga matérica dos objetos é perceptível no uso do óleo sobre tela e na fisicalidade das pinceladas que sugerem uma tridimensionalidade ao espectador. Para além de sua técnica, os enquadramentos sugeridos endossam a imperfeição e estranheza de suas esculturas. O corpo humano se faz aparente de modos distintos, mas poucas vezes é mostrado em sua totalidade; há sempre algo que impossibilita que nosso olhar contemple em detalhe as faces, troncos e membros das figuras pintadas.

Algumas de suas pinturas mostram fragmentos de esculturas ou representações de objetos quebrados que são batizados por nomes que possuem uma carga identitária, tal como “Lasar”, “Michelangelo”, “Segall” e “Victor”. Essas pistas - que podem levar o espectador a esbarrar, por exemplo, no fantasma do artista Lasar Segall - sugerem narrativas que convidam o espectador a ter uma postura imaginativa. Os seus céus também não geram conforto no observador; um deles é rarefeito como a fumaça, ao passo que aquele que carrega o bairro carioca de Santa Tereza em seu nome está mais para chuva do que para sol. Em ambos, somos novamente confrontados com imagens que se apresentam entre a representação e o enigma de algo que parece estar por vir.

A pesquisa de Rodrigo Martins chama a atenção devido à potência com que constrói diferentes estranhezas para o nosso olhar. Nem mesmo o gato Zimbeta, animal que visitava com frequência o seu ateliê, é retratado de modo palatável. Sua expressão dúbia entre a desconfiança e a morbidez de um animal empalhado poderia resumir o conjunto dessas obras. Fica o convite para que o público, assim como Zimbeta, tateie com o olhar este conjunto de obras, crie paralelos temporários entre as paredes e o chão e, ao fim, saia da galeria permeado por dúvidas.

Em um momento histórico em que a verborragia e a pressão pelas certezas se impõe, manter o olhar aberto para a dúvida que uma imagem ainda pode nos colocar é, certamente, uma virtude.

Raphael Fonseca

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Zimbeta


Upon observing Rodrigo Martin’s current exposition in Central Galeria, some elements are clearly consistent. At first glance, painting and sculpture stand out as the guiding languages in his creation of images. Upon second glance, in terms of what we might call the “subject” of his work, the viewers’ attention is called to the recurrence of elements referring to human anatomy. However, this triangular relationship between sculpture- painting- figure is not an equation with an obvious formula, and it seems that the artist is focused on this very tension in his work. The sculptural creation of the artist comes from the act of constructive addition, instead of approaching the sculpture with the process of material subtraction (where, for example, a human figure is born from within a block of granite).

Rodrigo Martins works with artisanal malleability and is predisposed to experimentation. One of his recent interests concerns the small busts around Rio de Janeiro that pay homage to artists from past generations. The proposed dialogue between the present and these monuments that are often imperceptible is done either by the use of different materials like plaster and imitation through observation, or from the extraction of molds made from the direct use of silicone. The results obtained are fragile and quickly fated to be far from classical imitation. The sculptures are presented in as raw a way as they were made- placed directly on the floor of the gallery, opaque, and not hiding the seams between steel and clay or the chance encounters between a branch and plaster. Sculpting and modeling are, in addition to being creators of raw objects, processes of creation that are open to chance.


When we observe these works next to his paintings, part of his modus operandi becomes clear- the same material weight of the objects is observable in the use of oil paint on canvas and in the physicality of his brushstrokes that suggest three dimensionality. Besides his technique, the choice of framing heightens the imperfection and strangeness of his sculptures. The human body is made apparent in various ways, but is rarely shown in its entirety; there is always something that makes it impossible for us to contemplate the faces, torsos, and parts of the
painted figures in detail.


Some of his paintings show fragments of sculptures or representations of broken objects that are baptized with names that carry a weighted identity, such as “Lasar”, “Michelangelo”, “Segall”, and “Victor”. These paths, which can lead the viewer to bump into, for example, the ghost of the artist Lasar Segall- suggest narratives that invite the viewer to take an imaginative stance. His skies also don’t provoke comfort in the viewer; one of them is thin like smoke, whereas one shows the Santa Tereza neighborhood in Rio de Janeiro, its name carrying more rain than sun. In both we are confronted again by images that are between representation and the enigma of something that seems to be coming.


Rodrigo Martins’ studies catch the viewers’ eye because of the peculiarity of his creations. Even Zimbeta, the cat who frequently visits his atelier, is not portrayed in a particularly pleasant way. His expression is dubiously between mistrust and the morbidity of a stuffed animal, which could summarize these works. It is an invitation that the public, like Zimbeta, visually feels this set of works, and creates temporary parallels between the walls and the floor and at the end, leaves the gallery permeated by doubt.


It is a historical moment in which chatter and pressure are imposed by certainty, keeping an eye out for the doubt that an image can still give us, which is without a doubt a virtue.


Raphael Fonseca