leitmotiv para rrrrrrrrrr

Energia e momento são o que de fato regem a relação entre todas as coisas conheci-das. Há, por assim dizer, uma diferença quase nula entre seres animados e inanima-dos: tudo e todos, em algum ponto e em diferentes escalas, estão sujeitos a ciclos de organização, funcionamento, reação e ruína. As aspirações dos corpos, as transpira-ções das máquinas, os tremores maxilares, o balbucio ruidoso da matéria inerte se tratam, no final das contas, de diferentes modos de agenciamentos que conformam uma orquestra complexa, na qual soam acordes de potência, força e entropia.

Gabriela Mureb, em rrrrrrrrrr, expõe uma série de motores, máquinas alteradas e vídeos que evocam experiências limítrofes do corpo – humano e maquínico – e da linguagem, ou do que é humanamente incompreensível ao ponto de insuportavel-mente incômodo. rrrrrrrrrr é um título-onomatopeia que faz referência ao som gutural, dificilmente pronunciável, que anuncia um momento disfuncional da linguagem e da perda de sentido. O ruído se torna aqui o ponto de conexão entre regimes heterogê-neos – metal, borracha, carne –, a partir do qual as máquinas ganham a improdutivi-dade do funcionamento ilógico, a fala não se pronuncia, os movimentos corporais são involuntários e a produção de fluidos, automatizada.

A montagem das obras no galpão semi-industrial da Central Galeria buscou seguir o ritmo da orquestração das coisas vivas e mortas em que a soma dos potenciais parti-culares cria uma espécie de estado geral – uma partitura de intensidades –: correias e motores à gasolina afrontam grandes planos em vídeo de balbucios corporais. A lín-gua suga a correia, a graxa lubrifica aberturas guturais e reentrâncias gustativas. A máquina é uma potência que tensiona na delicadeza violenta do cálculo e do caos.

Estes campos dissonantes, em mútua reverberação, causam um estranhamento fa-miliar que deixa rastros de destruição e declínio, porém, ambiguamente, de reconsti-tuição e reconhecimento no desconhecido. Desse confronto, portanto, emerge um ato de amparo, que transforma o sem-sentido em potência iniciática do não-dito, e o bor-rão em hieróglifos de uma ordem de cooperação ainda não conhecida.

Juliana Gontijo