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                                                        "Uma obra de arte é filha de sua época, e mãe de nossas emoções."

                                                                                                                                                                       -Kandinsky

                                                                                        "Arte não é sismografia, arte é o terremoto mesmo."

                                                                                                                                                                 -Timm Ulrichs

 

Arte é pesquisa. Pesquisa o quê? Pesquisa formas. É o que podemos perceber nos desenhos de Anna Israel. Pega uma forma, joga com ela, a deforma, a inventa; recebe impulsos de fora e os adapta às suas tentativas e a seus objetivos. 

A artista deve tornar-se uma folha em branco, apagar seu quadro negro; para pesquisar isso que estou chamando de forma, é necessário o exercício do esquecimento: da forma que já lhe foi dada, da sua própria forma, ou seja, quem sou eu, o eu recebido, o eu formal, para assim vir a conhecer um eu íntimo, escondido, desconhecido. Isso não só seria um dos objetivos dessa pesquisa artística, mas acredito que também a sua condição inicial. Quem conhece o jogo livre das formas, sabe do que estou falando. Ovo e galinha. 

Nesta travessia em direção ao jogo livre das formas, a artista deve sair de seu contexto e de suas referências habituais, como acontece com o estranhamento causado pelos objets trouvés, objetos encontrados pela artista e que, descontextualizados, abrem-se para outras definições, alterando seu estado de dicionário. Nada é o que parece ser. A pedra sabão não é uma pedra. Eu é um outro (Rimbaud). 

Agora, por que inventar as formas? Será porque não consigo mais me reconhecer nelas, não consigo mais me exprimir com elas? Tudo se transforma, inclusive as formas. A arte busca aquelas em que nós nos reconhecemos, inclusive as formas que vão dar-nos forma. As formas mortas não se transformam, e também não dá para viver nelas. 

Essa arte, então, seria pesquisa formal; pesquisa as formas através das quais nos exprimimos, também fora das convenções onipotentes. As velhas formas carregam essas convenções; já as novas, as frescas, procuram estar livre delas. Falam de nossa necessidade interior, como dizia Kandinsky. 

Percebo, nos trabalhos de Anna Israel, uma herança provinda da revolução da abstração, passando pelo cubismo, pelo surrealismo, pela pop-art, pela arte performativa até chegar na colagem: a pesquisa formal mesma. 

A colagem opera pelo deslocamento, pela condensação e pelo estranhamento das significações, em analogia com o sonho, como analisou Freud. Cada elemento recebe uma nova significação: um fio elétrico se revela fio de Ariadne. Na colagem, nada é arbitrário, as formas se juntam e se transformam mutuamente, produzindo formas e significações novas, revelando formas e símbolos escondidos nos objetos, mesmo os mais banais, abrindo novas dimensões e perspectivas. Nada é banal. A caixa de ferramentas comum torna-se, assim, objeto misterioso, torna-se pergunta: o que sou? Ariadne: entendemos bem, porém não conseguimos formular em palavras. 

Em sua obra, Anna Israel manipula essa nova língua, de maneira que é possível reconhecer, à primeira olhada, a sua assinatura, não só pelo conteúdo, mas pela forma artística mesma, pelo estilo, pelo jeito particular da artista usar o seu estilete. É a voz que reconhecemos entre mil, ainda mais precisa que uma impressão digital. Nesse caso: cor e luz, cores luminosas e luzes descoloridas, o segredo da artista, a sua assinatura, o equilíbrio da paixão, do delírio e da sobriedade, um equilíbrio lábil, o equilíbrio frágil da composição e da inspiração, do cálculo e da espontaneidade, do jogo e do sério, do eu e do não-eu. Isso transforma a língua, a refresca, dá a ela novos conteúdos e novos poderes. Refresca as determinações próprias da artista. Isso seria o sentido do trabalho artístico. 

Cada obra da exposição de Anna Israel documenta esse ato de transformação alquímica simultânea. 

A artista, ao conseguir a sua própria língua, abre novos caminhos que nos fornecem uma língua fresca, autêntica; autenticidade esta que nos remete àquilo que reside numa possibilidade de resposta para a pergunta nunca respondida formulada por Freud: O que deseja uma mulher? (Was will das Weib?) Será que esse desejo não consiste em justamente ser “si mesma”, inclusive naquele mesmo sentido de inventar seu próprio estilo? 

Bom, mas o que significa ser si mesma? É aqui que começaria o trabalho mesmo.

Christophe Kotanyi, Berlin 2017

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“A work of a art is daughter of its time, and mother of our emotions”

                                                                                                                                                      – Wassily Kandinsky

                                                                                           “Art is not seismography, it is the earthquake itself”

                                                                                                                                                               – Timm Ulrichs

 

Art is research. What does it research? It researches forms. This is what we can see in the work of Anna Israel. She takes a form, plays with it, deforms it, invents it; she receives impulses from the outside and adapts them to her attempts and her objectives.

The artist must become a plank page, erase her blackboard; in order to research that which I call form, we need an exercise of forgetting: that form that is already given, her own form, that is, the who am I, the received I, the formal I, in order to get to know an intimate I, hidden and unknown. This is not only  one of the objectives of this artistic research, it is rather, I believe, its initial condition. Whoever knows the free play of forms knows what I am talking about. Chicken and egg. 

In this crossing toward the free play of forms, the artist must exit her context and habitual references, as occurs in the objets trouvés, objects found by the artist which, decontextualized, open themselves up to new definitions, altering their dictionary state. Nothing is what it seems. Soapstone is not a stone. I is an other (Rimbaud).

Now, why invent forms? Is it because I am now unable to recognize myself in them, unable to express through them? Everything transforms, forms included. Art seeks for those in which we recognize ourselves, as well as for those forms which will in turn form us. Dead forms don’t transform, and it is also impossible to live in them. 

This art, therefore, would be formal research: it researches those forms through which we express, also free from omnipotent convention. Old forms bear these conventions; new, fresh ones seek to be free of them. They speak of our inner necessity, as Kandinsky said.

I see in Anna Israel’s work an inheritance coming from the revolution of abstraction, through cubism, surrealism, through pop-art and through performance art to get to the collage: formal research itself. 

Collage operates through dislocation, through condensation and the estrangement of meaning, in analogy with dreams, as Freud analyzed. Each element receives a new meaning: an electrical wire is Ariadne’s thread. In the collage, nothing is arbitrary, forms group together and transform each other mutually, producing new forms and significations, revealing symbols and forms hidden in even the most common of objects, opening new dimensions and perspectives. Nothing is banal. The common tool box becomes, in this manner, a mysterious object, it becomes a question: what am I? Ariadne: we understand well, but are unable to put it into words. 

In her oeuvre, Anna Israel manipulates this new language in such a way as to allow us, at first glance, to recognize her signature; not only in the content, but through artistic form itself, through style, through the artist’s particular manner of using her stylus. It is the voice we recognize among thousands, more precise than a digital print. In this case: color and light, luminous colors and discolored lights, the artist’s secret, her signature, the balance of passion, delirium and sobriety, a labile balance, the fragile balance of composition and inspiration, calculation and spontaneity, of play and seriousness, of I and not-I. This transforms the language, refreshes it, gives it new content and new powers. It refreshes the artist’s own determinations. This would be the sense of artistic practice.

Each work of Anna Israel’s documents this act of simultaneous alchemical transformation.

The artist, in achieving her own language, opens new paths that provide us with a fresh, authentic one; an authenticity that resides in a possible answer to the question posed by Freud: what does a woman desire? (Was will das Weib?) Isn’t it possible that this desires consists precisely of “being herself”, including in the sense of inventing her own style?

Well, what does it mean to be oneself? This is wear work really begins.

Christophe Kotanyi, Berlin 2017